Boas, eu sou o José.
Um anormal que já não se revê neste (ainda o categorizam assim) mundo humano.
Um anormal que adora a simplicidade de um gesto, a genuinidade de um sorriso, a verdade despida pelo olhar.
Um anormal que ainda sente saudade, que ainda não tenta esconder uma emoção, que ainda fala sem filtros, e que – embora já merecesse – ainda não consegue ficar indiferente à estupidez que é confundir existir com viver, limitando-se ao sobreviver.
Um anormal que, por tudo isto e muito mais, se sente encurralado — “assustado” com o caminho para onde a manada insiste em arrastar o Mundo.
Ainda assim, talvez precisamente pela minha “loucura”, com tomates para voltar a publicar os meus textos e ilustrações sobre o que penso e sinto.
Um pouco mais sobre mim
(Porque muito pouco, ou mesmo nada, surge do nada.)
Tenho quarenta e cinco anos, nasci com uma paralisia cerebral (não, não suponhas — pesquisa, lê sobre), sou licenciado em Engenharia Multimédia e adoro desportos aquáticos — já tendo praticado vela, remo e surf.
Se nunca me “viste” mais gordo (engraçado, eu também nunca me conheci mais gordo :p), até 2016/2017, além de feliz, eu fui muito ativo no semeio de um mundo realmente mais acolhedor e justo — de um mundo (quase) de e para todos.
Escrevo “fui” porque tive de parar uns bons anitos para cuidar menos dos outros e mais de mim.
Não foram tempos nada bonitos — foi um autêntico caos — mas… aqui estou eu.
No que diz respeito ao digital, volto agora com um site, um domínio e uma imagem diferente — uma ponte para esta minha pessoa, também ela muito (ou talvez ainda mais) diferente da que fui durante trinta e sete anos.
(Mas antes de prosseguir, quero deixar uma nota sobre o “além de feliz”.
Infelizmente, a manada, continuando cegamente fiel aos pastores de sempre, tende a considerar imbecil quem expressa uma verdade tão pura: a de que é possível ser genuinamente feliz mesmo num mundo imperfeito.
Como se ser feliz significasse viver num mundo perfeito, quando, no fundo, ser feliz é simplesmente sentirmo-nos vivos — é adorar e priorizar os pequenos detalhes, e fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para, na imensidão de vivências que a vida tem para nós, morrermos o menos estúpidos possível… baixando, em muito, o tanto que ainda ficará por fazer e dizer.)
O caos e o início da escalada
Em 2018/19 conheci o verdadeiro caos — o fundo dos fundos.
E foi preciso muita força para não “largar a corda” e conseguir, de algum modo, “sair” de lá.
Aspas porque falo de um caos mental (SPT, ansiedade ou o que queiram chamar) — e de caos destes nunca se sai curado, muito menos ileso.
Contudo, é neles que descobrimos muito sobre nós: coisas que antes nos escapavam e que hoje fazem toda a diferença na forma como vivemos o presente.
(Um dia escrevo sobre esse caos vivido, prometo.)
Na escalada, a cada topo alcançado, fui mudando — “mil vezes mais” do que a vida (não a sociedade, não o rebanho) me tinha mudado até então.
Mudou, sobretudo, a forma como vejo o mundo “humano” — que, muito francamente, sinto-o uma autêntica bosta.
Entre o caos e o recomeço — e o porquê deste blog
Apesar de a usar muitas vezes, confesso: a expressão “novo eu” dá-me cá uma coceiraaa.
Primeiro, porque este “novo eu” ainda ofusca o ser apaixonado que eu era.
Segundo — e daqui as aspas — porque, na verdade, não existe um novo e um velho eu; existe apenas o lado menos confiante, aquele que o caos deixou à mostra.
E porque sei o quão fácil é, para o “normal”, escorregar para o “eu sempre achei que…”, aqui vai o meu “… só que não”.
Eu — talvez por ter nascido com elas — sempre lidei bem com as minhas imperfeições mais acentuadas.
O que percebi, na escalada, é que não se trata de “lidar bem ou mal”.
Por exemplo: era frequente ouvir frases como:
– “Não sei como tens tanta força para fazer valer a tua vontade.”
E eu respondia algo assim:
– “Primeiro, não são vontades, mas sim possibilidades.
Segundo, se eu sei que algo é possível, porque motivo havia de baixar a cabeça perante alguém que nada sabe do que sou, ou do que sou capaz?”
Conscientemente, era — e tem de voltar a ser — verdade.
Mas, voltando ao que escrevia acima, percebi que, no inconsciente, a coisa podia ser bem mais complexa — batalhas de uma guerra.
Enquanto pensava que todos lutavam com noção de si, eu, sem dar por isso — talvez para “desculpar” o meu “não faço nada de especial” — ia aproveitando a fama de “anormal” para viver autenticamente: seguir o meu sorriso e ignorar convenções sobre o que deveria fazer/aceitar ou não.
E, nesse ponto, nem sequer o monstro do SPT conseguiu mudar-me.
Este blog nasce daí — dessa mistura de confusão e lucidez.
Da vontade (ainda viva) de não calar o que sinto, nem assistir de braços cruzados à degradação de um mundo que teima em confundir existir com viver.
Tentei ficar na minha, não me incomodar.
Mas — e já merecia conseguir — não consigo.
Talvez esta “gaveta digital” não mude nada.
Mas quem sabe? Talvez chegue a alguém que precise ler.
No mínimo, ao escrever, possa ecoar melhor em mim.
Acredito que exprimir-nos, seja qual for o meio — escrita, desenho, dança — nos ajuda sempre: a nós mesmos e a outros.
E se (ainda) acredito, é (ainda) possível.
Estou no caminho — ainda longo — de reconquistar pedaços do que já fui.
E pedaços, porque este aqui, quer goste ou não, também sou eu.
Não ambiciono irrealidades nem perfeições; apenas busco um equilíbrio entre o que (ou como) fui e o como me sinto hoje — ou, idealmente, que tenda para o que sorria.Por isso, que fique bem claro: tudo o que aqui publicarei será sobre mim — o que penso, o que sinto e o que vejo.
Esta ressalva, porque a verdade… essa, nem sempre entra bem na mente adulta.
